sábado, 6 de outubro de 2007

Do Centro à Periferia!


Felipa, para quem vem de fora, a primeira curiosidade é saber onde estamos. Explica pra gente que lugar a gente ta?

— Vocês estão no Grajaú, Jardim Belcito. A escola mais próxima dá uns três quilômetros. E as crianças vão. Os pais procuram sempre as escolas municipais porque tem a Pirua que vai e volta e o Estado não tem. Quando acontece do filho cair na escola do Estado é uma briga... é que os pais não querem porque não têm como levar. Muitos trabalham e a distância é muito longa. Assim daqui pro Santo Amaro deve dar uma hora de ônibus, depende do dia, às vezes é até mais. Sábado mesmo eu cheguei no Jabaquara em duas horas. Então é... Nosso espaço... A distância é essa, bem longe mesmo. O Posto de saúde ainda é mais longe ainda, pois dá quase 4 KM onde você pode ser atendido. Isto é quando consegue. Você tem que ir às cinco horas da manhã para pegar uma senha. Se você conseguir pegar uma senha para marcar o médico, beleza, se não conseguir, você fica sem. É a distância! Nosso problema aqui é a distância. Tudo é longe!

A chegada no Circo-Escola do Projeto Anchieta

“Saindo do Centro da cidade, metrô Barra Funda, o mais perto é você ir até o terminal Bandeira e pegar o terminal Santo Amaro. Lá você tem que pegar duas conduções... uma duas horas e meia, rapidinho você ta aqui”. Dizia Leda[1], mais tarde, quando já estávamos lá, e à mesa, almoçando.

Chegar lá não era o problema, afinal me virava bem por esses caminhos, já que na minha chegada à cidade, o meu primeiro trabalho foi como pesquisadora de um desses institutos da vida como “free-socióloga” recém-chegada. Daí para frente quase quatro anos visitando organizações comunitárias, da Leste a Sul, para desenvolver oficinas, reuniões etc. Difícil mesmo era chegar e perguntar para desenvolver a minha pesquisa. Apesar de todo o desembaraço e toda experiência em abordar pessoas, ali, provavelmente, estaria dando um passo para compreender como acontecia de fato o Projeto pensado para inclusão digital no Brasil. Afinal, como as comunidades fazem uso do computador? Para quê?

Com a minha experiência no trabalho com o Comitê para Democratização da Informática por quatro anos, sempre percebemos em reuniões coletivas ou em momentos de construção de relatórios, atrás da mesa do escritório, uma nuvem entre projeto arquitetado e trabalho fim. Saindo pela periferia para capacitar educadores e gestores até conseguíamos identificar algumas pistas, mas o trabalho de uma ONG é sintetizado na necessidade de ir sempre em frente, com o objetivo de utilizar os recursos, aplicá-los para conseguir alguns resultados, ao mesmo tempo em que é avaliado (correndo) o impacto da proposta. Por mais que queiramos parar, as metas não nos deixam. Que fazer? Aprendemos a seguir e não ver tudo. Mas, uma vez socióloga, sempre pesquisadora, e, mesmo não conseguindo refletir com qualidade sobre o processo que estávamos vivendo, o estado de inquietação foi deslanchado já com os sinais das primeiras fumaças. Um deles se reflete forte, como coloquei acima nas primeiras observações do campo, em minha pesquisa: as comunidades, interessadas em manter a parceria a qualquer custo com o CDI, não nos deixam ver facilmente o que acontece, por trás de suas portas. Com será, então? Me deixarão ver como pesquisadora? Conseguirei enxergar, ouvir o que me dirão? Com essas inquietações cheguei ao Circo-Escola do Jardim Belcito, próximo ao CEU Três Lagos, na região do Grajaú, capital paulistana.

[1] Leda é Gestora de Campo do “Projeto Anchieta”

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