As tecnologias da comunicação, a arte e o movimento popular
Décadas de 70, 80. Alguns amigos se juntavam em bando, em algum bairro da imensa periferia de uma cidade. Falavam de como fazer uma intervenção no bairro para que a mídia local tratasse os seus jovens com respeito. Chega de páginas policiais! Gritavam eles indignados. Esses mesmos jovens usaram a palavra e a arte como arma para seus intranqüilos e produtivos atos políticos. Picharam, deram vida a algum teatro de arena vazio e prostrado em algum canto da comunidade[1]. O desejo de expressar o que o bairro tinha de bom se levantava com o vento forte levado pelas ondas das rádios e sinais de TV, ainda na era analógica. Postes viravam apoio para cornetas do povo. “Dispensa pilha e o rádio. Vai entrar no ar... Para você economizar, a sua... a nossa rádio popular”[2] dizia um dos locutores. Mais uma vez deflagravam-se os manifestos públicos.
As intenções eram políticas: uns queriam fazer arte para chamar a atenção da mídia que retratava a periferia como um lugar de marginais; outros queriam discutir as questões da terra, da moradia com a comunidade ali apossada. Contudo, as manifestações eram, sobretudo, artísticas, pois era a partir da criação - da música, da poesia, do teatro - utilizada como meio para expressar os valores, idéias daqueles lugares, daquela juventude, daquele povo que o projeto político se realizava.
No seio das comunidades os festivais de música e poesia eram rajadas de vento que moviam o grande moinho do movimento popular. Gerador de energia a produção artística juntava os moradores, dando-lhes o lugar devido, o de protagonistas de sua história. As rádios no ar, o teatro lotado pelos moradores, a TV Alerta na praça da Igreja[3] anunciando a existência de uma gente que apenas queria fazer parte também do bolo do desenvolvimento.
Ao se identificar com esta ou aquela forma artística, os atores locais compartilhavam a direção da cena principal. Foi assim que os músicos ávidos em alastrar o que acontecia ali, foram incitados a compor mais e a inscrever suas produções em festivais dentro e fora da cidade. Mas para isso era necessário gravar a produção. Como fazer? Nascia a fita demo feita em grupo, em gravadores imensos, nos banheiros daquelas casas embrionárias, aproveitando a acústica do local e o silêncio da madrugada. Do estúdio improvisado para os CDs de fundo de quintal um salto de uma década pelo menos. No final dos anos 90 o mundo digital passou a ser o canal.
Os meios mudaram, mas a tradição de criar para se fazer presente terá continuado o projeto de mudança do movimento popular?
Para nós a arte de se fazer presente é a condição de existência do movimento popular. Era preciso fazer-se notar para existir como pessoas portadoras de direitos. Nas décadas de 70 e 80 isto se deu pelas relações comunitárias, com uma forte presença da igreja, com um foco no movimento de alfabetização popular, nas artes e na comunicação. Dos anos 90 para cá uma grande tendência à institucionalização tomou conta dos projetos das organizações populares, mas por outro lado, grupos de jovens ainda se reúnem, fazem arte e se envolvem em projetos comunitários, desta vez usando os meios digitais para se fazer notar.
É sob a égide dos pilares comunidade, arte, tecnologia e comunicação que se caracteriza o movimento popular dessas décadas. Surge daí o termo excluído, aquele que não usufrui dos direitos, os despossuídos, em oposição aos incluídos que usufruem dos direitos e têm oportunidades sociais para sua existência. É também aqui que se aprofunda a visão de cidadania como conquista de diretos e surgem os movimentos de inclusão, sendo a inclusão digital um dos componentes desse mapa de exclusão.
Entre a pesquisa, pesquisadores e o movimento de viver o evento
Como afirma Boaventura de Sousa Santos, na Crítica à razão indolente, todo trabalho científico é também autobiográfico. Foi participando desses eventos, acima descritos, ora como agente cultural, ora como cientista social que me fascinei por essas transformações. Estar também movendo o moinho foi a condição para que as minhas reflexões virassem perguntas, e estas, base de minha tese de doutorado.
São novos os sujeitos sociais?
São novas as ferramentas de inclusão?
Por que universalizar o acesso digital é importante?
Qual o lugar/papel das práticas/movimento de inclusão digital dentro desse novo mapa social?
Seria as TICs um novo instrumento de fortalecimento da democracia? Como isto se realiza nas comunidades “excluídas”?
Estamos diante de uma nova (novíssima) configuração do movimento social?
Estas questões, reelaboradas tantas vezes, são frutos de minhas inquietações e do diálogo em cada evento vivido e com cada referência tomada. A saída no campo está aos poucos avivando a minha tese, ou melhor, desenhando melhor os caminhos escolhidos. À luz desse debate silencioso com os autores e atores sociais, percebi que a nossa referência bibliográfica tem acenado com pistas para as novas articulações políticas, mas ainda sobe uma forte análise dicotômica. Em nosso caso na discussão atual sobre Sociedade Civil e Estado, base de grande parte dos pressupostos teóricos das pesquisas sobre os movimentos sociais, é central o avanço das ONGs e a nova configuração do mapa social, mas existe uma forte tendência em afastar o “mal” da institucionalização, recorrendo à teoria dos opostos, nela a independência da sociedade civil é primordial na luta com o Estado. Mas seria só o Estado o seu opositor?
São essas a primeiras pistas que nascem desta pesquisa. Vamos continuando a cada tomada mais organizada.
Prometo trazer fotos e trechos de vídeo na próxima leva, para colorir o debate.
[1] Fatos baseados na pesquisa de mestrado da autora, “Do trem da Esperança à estação das ruas verdes: o bairro cidade da esperança no imaginário dos moradores”. UFRN, 2003.
[2] Caderno introdutório dos manuais de comunicação produzido pelo ALER-Brasil, IBASE, FASE, SEPAC/EP
[3] A TV Alerta é uma experiência de TV Comunitária no início dos anos 90, do Movimento de Lazer Esporte e Cultura da Cidade da Esperança e Direitos Humanos de Natal – arquivo do DHNET, citado na dissertação de mestrado da autora.
terça-feira, 18 de setembro de 2007
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